MANDAMENTOS DAS HISTÓRIAS MAL CONTADAS

 

Recortes de Silviano Santiago, colagem de Inês.

“Quantas histórias da minha vida foram mal contadas, e assim continuam.”

“Qur critérios adotar para escolher a primeira que receberá o crivo da verdade? Primeiro mandamento. Não cair no engodo de dar ouvidos ao desembaraço e à extroversão das histórias barulhentas e fétidas. As que se denominam mal contadas são na maioria dos casos as que receberam melhor tratamento por parte do narrador. Como se estivessem diante de um velho gagá, despem o taje de gala com que as vesti e comparecem ao tribunal da consciência em andrajos. As lágrimas escorrem pela maquiagem. O tom de voz é soturno. Dizem fomos perseguidas pelas suas palavras, as circunstâncias e os deuses.”

“Segundo mandamento. A história escolhida tem que ser a mais silenciosa, intensa e obsessiva. Aparentemente desprovida palavras, há muito vem ronronando nos meus ouvidos num zumbido tão penetrante quanto o de nuvem de pernilongos à beira-mar. […] As histórias mal contadas pelo silêncio do narrador ferem como punhais na calada da noite. São vingativas e, caso imprimam velocidade ao redemoinho do pesadelo, são mortais.”

“Terceiro mandamento. A escolhida terá de ser uma história que tem batido com constância à porta da minha atenção, sem ter sido pressionada ou pela vontade dela ou pela minha. Raie o dia, caia a noite. Faça sol, faça chuva. Pede urgência, ao mesmo tempo em que se despe de qualquer presunção. Exerce tal tirania, que minha imaginação se vê obrigada a ficar de vigília na guarita, vestida de espantalho ou de palhaço de circo. Não há trapaça ou careta que sirva para adiar ou espantar o cara a cara definitivo e cruel. Despertada pelo acaso ou pela lembrança involuntária, a história ganha ares de dona do pedaço.”

“Quarto mandamento. Tem que ser uma história mal contada que não brinque em serviço. Exatamente aquela que, se os deuses lhe tivessem fechado a porta de entrada, compensaria o gesto abusivo, arrombando a janela e se obrigando a saltar para dentro de casa, furtiva que nem ladrão. Se lhe tivessem fechado a janela, compensaria o uso imoderado de poder, ordenando a ela própria que entrasse sub-reptícia pela tubulação do esgoto. Toda enlameada e coroada pela fatalidade do destino, a mal contada ganharia forças e abriria a porta da sala de visitas. ‘Eis-me!'”

“Serei mentiroso nato?”

“Não somos todos?”

 


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