filosofia

•setembro 7, 2012 • Deixe um comentário

 

Fazer filosofia importa em anotar mais de um apontamento, em considerar mais do que medições; não será menos complicado do que fazer um almoço nem mais simples do que construir bancos de madeira. Para filosofar talvez precise só de livros, papel, caneta e pessoas a meu redor que não utilizam aparelhos de som em altos brados.

                                                                                 Benedito Nunes

 

Entendeu?

 

Anúncios

algumas regras

•abril 23, 2012 • Deixe um comentário

 

havia regras naquela casa. jamais deixar louça suja sobre a pia. receber crianças às quartas e ser sempre recepcionado por gatos ao por do dia. fazer café com sanduíche pela manhã. dormir no quarto de hóspedes para quebrar a rotina. salgar tomates antes de juntá-los à salada. trocar corriqueiramente o lado da cama, para evitar pesadelos. nunca esquecer a salsa e a cebolinha.

 

23 de abril de 2012

•abril 23, 2012 • Deixe um comentário

 

imaginei viajar por todo lugar lendo para contar histórias, ouvindo para olhá-las e vendo para escrevê-las.

também ganhei uma caixa de caran d’ache. encaro como sinal para colorir a vida.

 

às cegas

•março 1, 2012 • Deixe um comentário

 

percorreu com a ponta dos dedos os longos cabelos molhados, da raiz até as pontas, desembaraçando demoradamente mecha por mecha. não tinha pente. era assim que escovava os cabelos.

desfez o nó da toalha velha e já um pouco áspera para trocá-la por algo mais apresentável. tateou a cama em busca do vestido quente de bem passado e nele mergulhou, deixando que a seda acariciasse seus quadris ainda nus. a sensação era tão inebriante que pensou duas vezes se colocaria mesmo algo por debaixo. achou por bem não abusar na ousadia e escolheu uma renda antialérgica, mas francesapara não perder o glamour.

deslizou macio o batom pela boca e pegou os anéis em cima da cômoda, onde ficavam protegidos de descascar sob a água clorificada e cheia de impurezas das grandes metrópoles. passou a mão pelas próprias curvas sentindo-se divina, respirou fresco os últimos instantes de autoencantamento e finalmente colocou o par de óculos.

 

25 de fevereiro de 2012

•fevereiro 25, 2012 • 1 Comentário

 

precisando desesperadamente ser surpreendida novamente pela leitura, acordei e fui ao sebo. procurava um zweig, mas voltei para casa com um nabokov, o que nunca é coisa ruim. 

como dei para ter paranóias de idade, tenho me acostumado a ficar nua em casa sempre que estou sozinha, que é para não ter modo de ignorar os efeitos do tempo e jamais a desculpa de um dia me olhar no espelho e ver que, “de repente”, ele passou. ao menos conheço todas as curvas mal-feitas, as linhas disformes e as gorduras em excesso. talvez os vizinhos também.

foi assim que me deitei na cama de hóspedes, embaixo da janela ensolarada, para começar a ler o original de laura. assim, em minúsculo como desambição do cotidiano. foi assim que me deparei, à página 35, com uma, apenas uma, no livro todo, frase sublinhada:

“sua refinada estrutura óssea deslizava de imediato para um romance – transformava-se de fato na estrutura secreta daquele romance, além de sustentar uma porção de poemas”

 

amora púrpura

•fevereiro 12, 2012 • Deixe um comentário

 

“amora, mamãe”, disse a pequena apontando o dedinho rosa para o alto da árvore. insistia em fazer as coisas mais encantadoras nos piores momentos. a mãe fingiu não ouvir enquanto seguia em passos apressados repetindo a si mesma ” sempre em frente, sempre em frente”. com a outra mão, como quem afagava o bichinho de pelúcia mais querido, a menina enrolava seus cachos avermelhados. os da mãe, porque os seus eram dourados, da cor que toda gente que se preze imagina os cabelos de anjo.

pensou nisso e logo sacudiu a cabeça para tirar aquela imagem que não a levaria a lugar nenhum, afinal a decisão estava tomada. atravessou o sinal amarelo em direção à casa de janelas laranja e telhado de telhas coloniais, pálida mas feliz, pois sua vida finalmente era só certeza.

“a nuvem, mamãe” falou ainda mais encantadora, fazendo doer o coração duro de pedra e remédios da jovem mãe. mas ela não amolecia ante o olhar acinzentado da menina. parou em frente à casa, tocou a campainha e esclareceu sensata “meu amor, é para o seu bem”, dando-lhe um beijo na teste e entregando-a à moça de uniforme branco.

no aniversário de 15 anos, rosa esperou todos adormecerem e, à revelia de amanda, foi finalmente investigar sua ficha nos arquivos da instituição. começava a desaparecer a lembrança da ruiva partindo rua afora, esvoaçante em sua saia púrpura.

 

dístico elegíaco

•fevereiro 9, 2012 • Deixe um comentário

 

apaixonei-me por ela na primeira vez em que a vi cortando um pedaço de queijo. descobri ali uma nova dimensão de delicadeza. depois disso, passei a prestar atenção em seu andar, na maneira como montava as garfadas, em como passava condicionador nos cabelos durante o banho. nada era trivial, absolutamente tudo importava. quando íamos a alguma cachoeira, notava seus pezinhos pulando de pedra em pedra, em um balanço harmônico e calculado, como numa dança. arrumava a cama meticulosamente, colocando em cada dobra do lençol um mundo de regras e retas.

mesmo assim não conseguia nunca dizer um só elogio.